Governo cria pedágio para o dólar: tem que pagar para entrar
Principal objetivo é acabar com as especulações cambiais no país
Brasília e rio de janeiro.Na ação mais dura adotada contra a especulação que alimenta o derretimento do dólar, o governo instituiu ontem um pedágio para os investidores que aumentarem suas apostas na queda da moeda norte-americana.A partir de agora, o aplicador que atuar no mercado futuro precisará ficar atento à relação entre sua posição vendida (que espera desvalorização do dólar) e sua posição comprada (que aposta na subida da moeda). Quem fizer operações vendidas acima de US$ 10 milhões e não tiver uma contrapartida equivalente em operações compradas, estará sujeito a um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 1% sobre o descasamento. A alíquota poderá será elevada até 25%, a qualquer momento, caso o governo ache necessário. Estima-se que o descasamento hoje seja um dos principais focos de pressão pela desvalorização do dólar.
O mercado foi surpreendido com o decreto, que só foi explicado uma hora e meia depois. Na abertura dos negócios, bancos puxaram o freio de mão e a moeda abriu em alta. Por volta do meio dia, subiu a 2,21%, a R$ 1,571. Aos poucos, as regras ficaram mais claras. Embora duras, seus efeitos foram considerados de curto prazo. Com isso, a moeda perdeu força à tarde e fechou em alta de 1,30%, a R$ 1,557, em linha com a valorização do dólar nos mercados internacionais. A medida interrompeu seis pregões de queda, mas o dólar ainda está nas menores cotações em 12 anos.
A medida passou a valer ontem, data da publicação do decreto. Portanto, os aplicadores que começaram a quarta-feira com uma exposição cambial vendida de US$ 50 milhões, por exemplo, pagarão o tributo apenas se esse valor subir. Caso a exposição passe para US$ 70 milhões, o investidor será obrigado a recolher IOF de 1% sobre US$ 20 milhões, ou seja, R$ 200 mil.
A equipe econômica também aumentou o controle sobre derivativos. A partir de agora, as operações terão que ser registradas na BM&FBovespa e na Cetip. Além disso, o Conselho Monetário Nacional (CMN) terá poderes para regular essas operações, podendo exigir depósitos de margem maiores ou limitar alavancagem. O governo fechou ainda uma brecha na taxação dos empréstimos feitos no exterior. Os aplicadores que tomarem crédito externo com prazo acima de 720 dias mas liquidarem a operação antecipadamente terão que pagar IOF de 6% mais juros e multa.
Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o IOF para derivativos foi adotado pois o mercado brasileiro vem sendo alvo de especulação. Ele admitiu que a moeda norte-americana passa por uma desvalorização mundial, mas ressaltou que o quadro aqui é mais grave. "A desvalorização é mundial. Mas, no Brasil, temos tido uma valorização a mais porque o país está mais sólido e o mercado de derivativos é organizado. Com essa medida, vamos tirar uma parte da rentabilidade da especulação. Esperamos que haja uma desvalorização do real ou não valorização", disse Mantega. "As medidas que temos tomado impedem que o real caminhe para patamares bastante desconfortáveis para a economia brasileira. Se não estivéssemos tomando medidas, o câmbio estaria sabe-se lá onde, prejudicando o exportador e o produtor para o mercado interno".
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, explicou que a medida deve atingir principalmente os investidores estrangeiros. Segundo ele, a maior parte da exposição cambial corresponde a esses aplicadores.
EFEITO
Exportadores também podem ser prejudicados
Brasília. Os exportadores também poderão ser punidos com as novas medidas adotadas pelo governo para tentar brecar a especulação com o dólar. Se as empresas que vendem produtos lá fora aumentarem suas operações de proteção contra a variação cambial, na expectativa de aumento de receitas, elas acabarão tendo de pagar o mesmo imposto que será cobrado dos especuladores.
O secretário executivo do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, reconheceu que os exportadores podem ter "alguma perda" em suas operações de proteção (hedge) no mercado futuro de câmbio. Barbosa ponderou, entretanto, que, "numa visão mais ampla", o segmento será beneficiado, já que as medidas buscam conter a valorização do real - que prejudica a rentabilidade das exportações.
O ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, classificou como "péssimas" e "desesperadas" as novas medidas cambiais. Para ele, um dos efeitos colaterais das medidas será a exportação do mercado de derivativos do Brasil para a Bolsa de Mercadorias e Futuros de Chicago. "No fundo, isso tende a reduzir a liquidez aqui", disse.
O secretário executivo do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, reconheceu que os exportadores podem ter "alguma perda" em suas operações de proteção (hedge) no mercado futuro de câmbio. Barbosa ponderou, entretanto, que, "numa visão mais ampla", o segmento será beneficiado, já que as medidas buscam conter a valorização do real - que prejudica a rentabilidade das exportações.
O ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, classificou como "péssimas" e "desesperadas" as novas medidas cambiais. Para ele, um dos efeitos colaterais das medidas será a exportação do mercado de derivativos do Brasil para a Bolsa de Mercadorias e Futuros de Chicago. "No fundo, isso tende a reduzir a liquidez aqui", disse.
Glossário
O que são negociações no mercado futuro (derivativos)? São contratos por meio dos quais o investidor se compromete a comprar ou vender dólares, a um preço prefixado, numa data futura. Quando eles vendem dólares no futuro,
é porque "apostam" que a cotação vai cair lá na frente e querem garantir, desde já, um valor maior pela moeda.
Hedge:
É uma forma, um seguro do sistema financeiro, de proteger uma aplicação contra as oscilações do mercado. No caso do câmbio, contra a volatilidade das moedas. O hedge significa menos risco para a posição do investidor, seja ela qual for.
é porque "apostam" que a cotação vai cair lá na frente e querem garantir, desde já, um valor maior pela moeda.
Hedge:
É uma forma, um seguro do sistema financeiro, de proteger uma aplicação contra as oscilações do mercado. No caso do câmbio, contra a volatilidade das moedas. O hedge significa menos risco para a posição do investidor, seja ela qual for.
EFEITO DO CÂMBIO
Cresce importação de bebidas, carros e roupas
Importação de bebidas chegou a crescer 600% neste ano
Indústria nacional se queixa da concorrência e teme perdas irreversíveis
NALU SAAD
Especial para O Tempo
Com o dólar baixo e o real valorizado, há uma avalanche de produtos estrangeiros no Brasil. As importações no primeiro semestre deste ano já são 29,56% maiores do que no mesmo período de 2010, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Embora seja liderada por petróleo e derivados, a lista dos itens mais importados também inclui circuitos eletrônicos, peças, insumos químicos e medicamentos - porque são comprados em maior volume por grandes indústrias brasileiras -, bens de consumo, como bebidas, roupas, calçados, mobiliários, tecidos, perfumes e alimentos. Bebidas, por exemplo, tiveram alta de mais de 600%.
Grande parte dos importados continua vindo da Ásia. Apesar de os Estados Unidos serem a principal origem (14,85%) e a China aparecer em segundo lugar, somadas as exportações chinesas e coreanas, a dupla asiática lidera com 18,2% das vendas para o Brasil. Além disso, as importações da China cresceram mais no período que as dos Estados Unidos; 36,94% contra 30,22%.
Desigualdade. Situação que aumenta o alerta de vários setores para o risco da desindustrialização nacional."A balança comercial está equilibrada porque investidores estrangeiros estão apostando no Brasil. Contudo, as empresas nacionais estão perdendo mercado dentro de casa porque têm menos condições de concorrer. Pagam mais impostos, enfrentam mais burocracia e sofrem com a falta de mão de obra qualificada", avalia Reginaldo Nogueira, professor de economia internacional do Ibmec.
A indústria de calçados, por exemplo, após o crescimento de quase 50% das importações no último semestre, acendeu a luz vermelha e quer rebater o problema exportando mais. Há menos de um mês, começou movimento que visa melhorar o design para que seus calçados atraiam estrangeiros. Estão envolvidos no projeto todas as entidades que representam o setor.
A existência de excedentes no mercado internacional e o câmbio favorável são o único jeito de reverter a situação e ganhar competitividade, segundo Nogueira. "Os produtos nacionais só concorrerão em igualdade com o estrangeiro quando problemas estruturais forem corrigidos", disse o especialista.
Grande parte dos importados continua vindo da Ásia. Apesar de os Estados Unidos serem a principal origem (14,85%) e a China aparecer em segundo lugar, somadas as exportações chinesas e coreanas, a dupla asiática lidera com 18,2% das vendas para o Brasil. Além disso, as importações da China cresceram mais no período que as dos Estados Unidos; 36,94% contra 30,22%.
Desigualdade. Situação que aumenta o alerta de vários setores para o risco da desindustrialização nacional."A balança comercial está equilibrada porque investidores estrangeiros estão apostando no Brasil. Contudo, as empresas nacionais estão perdendo mercado dentro de casa porque têm menos condições de concorrer. Pagam mais impostos, enfrentam mais burocracia e sofrem com a falta de mão de obra qualificada", avalia Reginaldo Nogueira, professor de economia internacional do Ibmec.
A indústria de calçados, por exemplo, após o crescimento de quase 50% das importações no último semestre, acendeu a luz vermelha e quer rebater o problema exportando mais. Há menos de um mês, começou movimento que visa melhorar o design para que seus calçados atraiam estrangeiros. Estão envolvidos no projeto todas as entidades que representam o setor.
A existência de excedentes no mercado internacional e o câmbio favorável são o único jeito de reverter a situação e ganhar competitividade, segundo Nogueira. "Os produtos nacionais só concorrerão em igualdade com o estrangeiro quando problemas estruturais forem corrigidos", disse o especialista.
SOBRE RODAS
"Invasão" de veículos cresce 130%
O mercado automobilístico de um modo geral, o segundo maior importador do país, registrou alta de 46,28% no primeiro semestre deste ano. Mas a surpresa no período foi o crescimento de 113,1% das importações de carros sem fábricas no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva).
Os chineses também aparecem como líderes em importações nesse setor, mas é preciso lembrar que vêm de uma base baixa, já que pouco vendiam no Brasil em 2009 e 2010. A Chana, marca chinesa com maior crescimento, fechou o mês de junho com alta de 867,77% em comparação ao mesmo mês do ano passado. No semestre, cresceu 315,4%. (NS)
Os chineses também aparecem como líderes em importações nesse setor, mas é preciso lembrar que vêm de uma base baixa, já que pouco vendiam no Brasil em 2009 e 2010. A Chana, marca chinesa com maior crescimento, fechou o mês de junho com alta de 867,77% em comparação ao mesmo mês do ano passado. No semestre, cresceu 315,4%. (NS)


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